Os gastos com saúde e educação devem ter um mínimo obrigatório? Para Michel Temer e seu partido, o PMDB, não.
No texto que é considerado por muitos seu plano para o país, o Ponte Para o Futuro,
a legenda afirma que, para que a economia volte a crescer, é necessário
reformar nossa "sistemática orçamentária" -- ou seja, reorganizar os
gastos do governo brasileiro.
E sugere medidas. "Em primeiro
lugar, acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como nos
casos dos gastos com saúde e com educação", diz o documento de 18
páginas sobre a obrigatoriedade do investimento nessas áreas de um
percentual fixo da arrecadação com impostos.
O próprio recém-nomeado ministro da Saúde, Ricardo Barros (PP-PR), expôs, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo,
a preocupação de que o país não venha a ter como sustentar o acesso
universal a saúde. "Vamos ter que repactuar, como aconteceu na Grécia,
onde cortaram as aposentadorias."
Atualmente, a União é obrigada
a aplicar na saúde ao menos o mesmo valor do ano anterior mais o
percentual de variação do PIB (Produto Interno Bruto). Estados e
municípios precisam investir 12% e 15%, respectivamente. Na educação, o
governo federal deve gastar 18% do arrecadado e as outras esferas, 25%.
Em seus tempos de vice, o presidente interino defendeu publicamente o
fim dessa regra. "Essa fórmula (acabar com a exigência) reforça a
Federação, que se ancora na ideia de autonomias locais", afirmou na
convenção do PMDB, em novembro.
Mas, enquanto ainda não é
possível saber se o governo interino levará a ideia adiante e se
conseguirá o apoio do Congresso para tal, há um projeto que atende a
parte desse ideal de orçamento. E com grandes chances de aprovação.
Trata-se da proposta de emenda à Constituição de número 143/2015, já
aprovada em primeira votação no Senado. A PEC pretende estender aos
Estados e municípios um direito que o governo federal já exerce com a
DRU (Desvinculação de Receitas da União): o que permite que as gestões
usem livremente 25% dos valores que teriam de aplicar compulsoriamente
em saúde -- a educação acabou poupada.
O tema desperta
controvérsias. De um lado, há quem condene a retirada, até mesmo de
fatias, dessa obrigatoriedade - e vê sob ameaça a própria existência do
Sistema Único de Saúde (SUS); de outro, alguns veem na regra atual um
"engessamento" dos gastos que, além de colaborar com a piora nas contas
públicas, não garante uma boa aplicação do dinheiro.
Alívio?
Embora não atenda diretamente ao governo federal, a eventual aprovação
da PEC, de autoria do senador Dalirio Beber (PSDB-SC) e relatada pelo
hoje ministro do Planejamento de Temer, Romero Jucá (PMDB-RR), chegaria
em um momento favorável para o governo.
Como muitas
administrações locais sofrem com a crise econômica, um alívio como esse
seria bem-vindo – vale lembrar aqui que o PMDB é o partido líder em
número de Estados e municípios no país.
Em seu primeiro
discurso, Temer disse querer corrigir o que vê como distorções que
sobrecarregam cidades e governos estaduais e defendeu uma reforma do
"pacto federativo" (de modo geral, dos direitos e responsabilidades de
cada ente da federação).
Gustavo Fernandes, professor do
Departamento de Gestão Pública da EAESP-FGV, diz que países mais
desenvolvidos não costumam vincular o orçamento a gastos fixos, mas não
vê a retirada da obrigatoriedade, seja em partes ou definitivamente,
como uma boa saída para o Brasil.
"Estamos flexibilizando o
processo, o que faz sentido, mas não estamos garantindo que a educação
seja privilegiada", afirma ele, que defende a vinculação de verbas a
resultados.
O professor cita como exemplo o programa educacional No Child Left Behind (Nenhuma criança deixada para trás, em tradução livre), do governo dos Estados Unidos.
Como no país a educação é financiada pelo imposto de propriedade, que é
local, regiões mais pobres costumam ter menos recursos para investir.
Para harmonizar esse descompasso, o programa monitora os resultados e
acompanha os distritos que apresentam dificuldades. O que significa, se
necessário, investir mais dinheiro do governo federal naquela região.
A falta desse tipo de fiscalização, avalia o especialista da FGV,
potencializa no Brasil os riscos de uma redução dos recursos investidos
em caso de desvinculação, principalmente nos municípios.
"O prefeito é um profissional. Tem uma carreira política, quer
ascender. Ele tende a adotar políticas de curto prazo, que sejam
facilmente identificadas pelo eleitor. Com isso, essas políticas
difusas, de longo prazo, mas que mudam as gerações – o caso típico de
educação –, tendem a ser menos importantes para o prefeito", afirma.
A proposta peemedebista de acabar de vez com o percentual de gasto
obrigatório aposta na adoção de um orçamento impositivo – ou seja, que
obrigue o Executivo a investir tudo que está no plano aprovado no
Legislativo –, o que, na sua visão, colocaria os parlamentares como
"guardiões" da manutenção do investimento nessas áreas.
Hoje, o orçamento é facultativo, ou seja, o governo não é penalizado se deixa de aplicar algo que estava previsto.
Para Fernandes, isso é discutível: "Os fatores que vão influenciar um
maior ou menor gasto em educação e saúde manterão seu efeito com ou sem o
orçamento impositivo".
Alejandra Meraz Velasco,
coordenadora-geral da ONG Todos Pela Educação, diz que qualquer medida
que permita reduzir os gastos da área representa um retrocesso.
Principalmente porque, segundo ela, o Brasil ainda precisa vencer
desafios que já foram ultrapassados na maioria dos outros países da
América Latina, como a inclusão, explica ela: "Há 2,5 milhões de jovens
em idade de frequentar o ensino médio que não estão frequentando. Mesmo
no ensino fundamental, tem meio milhão fora da escola".
Velasco
cita ainda os gargalos de infraestrutura escolar. "E não é nenhuma
extravagância: estamos falando de água potável, esgoto sanitário, de
condições quase mínimas de funcionamento."
Presente no texto
inicial do Senado, a área acabou poupada na versão aprovada em primeiro
turno: emendas determinaram o cumprimento do gasto mínimo obrigatório
constitucional com manutenção e desenvolvimento de ensino. Mas a saúde
foi mantida.
Tramitação
Uma PEC precisa ser aprovada
em dois turnos por ambas as Casas para que seja promulgada. Na primeira
votação dos senadores, a proposta que estende aos governos locais a
liberação de 25% dos recursos atrelados a saúde e a educação foi
avalizada por 53 votos a 17 (eram necessários 49, ou três quintos do
total).
Em um Senado ocupado com o impeachment, o segundo turno
acabou adiado diversas vezes nas últimas semanas. Com o afastamento de
Dilma, a previsão é de que o texto finalmente seja votado nos próximos
dias, e, caso os senadores mantenham seus votos, siga para a Câmara.
Em conversa com a BBC Brasil antes de ser nomeado ministro do
Desenvolvimento Social e Agrário, o médico Osmar Terra (PMDB-RS), então
líder da Frente Parlamentar da Saúde da Câmara, afirmou duvidar que os
deputados acompanhem os senadores.
"Não se aprova na Câmara nem
com banda de música isso aí", disse o então parlamentar. "A maioria dos
deputados tem a minha opinião. Eles não vão ser coniventes com o fim do
Sistema Único de Saúde."
Para Terra, uma medida como essa não
mudaria muita coisa para municípios, que já seriam obrigados a aplicar
mais recursos do que a lei manda.
"Nos Estados é que pode
permitir que os governadores invistam menos em saúde", diz. "Aí você
junta o governador investindo menos na saúde e o governo federal
cortando R$ 20 bilhões como cortou neste ano. Isso é tampa do caixão do
SUS".
Viabilidade em dúvida
Uma carta aberta publicada
por instituições ligadas ao setor estima em até R$ 80 bilhões o valor
que o sistema público deve perder anualmente caso a proposta seja
aprovada -- e levada a cabo.
Dalirio Beber, o senador autor da
PEC, foi procurado pela BBC Brasil, mas não respondeu aos pedidos de
entrevista até a publicação deste texto. Em texto publicado em seu site,
classifica a cifra divulgada pelas entidades como "falsa informação" e
garante que não haverá redução dos recursos aplicados em saúde.
"Se os (...) 5.570 municípios do Brasil, resolvessem aplicar única e
exclusivamente os 15% que a Constituição os obriga, nós teríamos um
colapso gigantesco instalado", diz.
Embora a vitória do texto
não tenha sido difícil no primeiro turno, uma análise do placar expõe
uma divisão dentro do próprio PMDB de Temer -- e do Ponte Para o Futuro: três senadores do partido, Hélio José (DF), Roberto Requião (PR) e Simone Tebet (MS) votaram contra a proposta tucana.
O que, de certa forma, ilustra as dificuldades que o governo
peemedebista enfrentaria se resolver ir em frente com a ideia da
desvinculação total dos gastos com saúde e educação.
Maria Helena Araújo/jornalista/fonte UOL Notícias Ciência e Saúde
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