Por Gabriel Alves
Fazia algum tempo que não surgia uma grande novidade na relação
entre zika e microcefalia. Se alguém ainda sentia falta de evidência
para estabelecer a relação causal entre as duas condições, é a hora de
rever os conceitos.
Três trabalhos independentes foram publicados nesta quarta (11),
mostrando mais uma vez a capacidade de o vírus da zika agredir o sistema
nervoso, impedindo seu desenvolvimento. A peculiaridade é que dessa vez
foram usados modelos animais –camundongos.
O mais notável desses artigos é brasileiro e foi publicado na prestigiosa revista “Nature”. Você pode ler aqui a reportagem da Folha a respeito.
Antes disso já havia dados o suficiente para a maioria de médicos e
cientistas, além da Organização Mundial da Saúde, considerarem a relação
de causalidade estabelecida. Mesmo assim, ainda havia uma nesga de
dúvida. O caminho completo da infecção, do sangue ao cérebro do feto
–passando pela placenta– ainda não era tão claro, apesar de haver
algumas peças soltas desse quebra-cabeça.
Já se sabia que esse arbovírus (vírus transmitido por um vetor
artrópode, como os mosquitos aedes) tinha uma característica
neurotrópica (preferência ou facilidade de atacar neurônios), mas os
artigos científicos dessa leva vão além porque mostram esse efeito em um
organismo vivo, complexo, não em uma cultura de células ou organoides
(minicérebros), como mostrou o trabalho de Stevens Rehen, da UFRJ e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino.
No novo trabalho brasileiro, as fêmeas de camundongo foram infectadas
durante a prenhez e seus filhotes nasceram com defeitos importantes,
Veja alguns dos resultados abaixo.
É possível ver a diferença no tamanho dos fetos (a) e também de
medidas do crânio (b). O trabalho ainda traz indícios de que o vírus
pode alterar a expressão gênica das células favorecendo mecanismos de
“suicídio” celular ou de autofagia –ambos podem causar a microcefalia.
Vale destacar o esforço do grupo de cientistas da Universidade de
Washington, que criou um modelo animal “humanizado”, com um sistema
imunológico geneticamente programado para falhar e permitir a infecção.
Após a inoculação, houve danos na placenta e no feto –podendo ser letal.
O trabalho está na também excelente revista “Cell”.
Um grupo chinês injetou vírus da zika diretamente em fetos de
camundongos e constatou a microcefalia após alguns dias. O trabalho está
na “Cell Stem Cell”.
No estudo brasileiro, uma das linhagens testadas era “resistente” à
infecção por zika (sua prole ficava intacta). É possível supor que
alguma fragilidade do sistema imunológico contribua para a infecção
tanto nos animais quanto em humanos –o que poderia explicar a alta
incidência de microcefalia em algumas regiões, em grupos de pessoas com
características étnicas ou comportamentais semelhantes.
Além de solidificar a relação causal entre zika e microcefalia, o
desenvolvimento de modelos animais é importante para o teste de novas
drogas e vacinas contra o vírus da zika. Já há estudos nessa direção.
A crise do zika, como mostramos na reportagem “Bastidores da zika”,
foi uma oportunidade para pesquisadores brasileiros “mostrarem
serviço”, atendendo uma comovente demanda do país. Existe o medo, porém,
de que esse fôlego inicial acabe –seja por falta de verba ou pessoal.
Nesse sentido, o trabalho do grupo brasileiro, majoritariamente da
USP, é um alento. Em meio a essa crise política e econômica, resta
torcer para que se afaste o perigo de que o país perca o protagonismo
científico na emergência sanitária internacional e possa mostrar que
dispõe de grandes cientistas e gestores, capazes de lidar com um
problema dessa dimensão.
Maria Helena Araújo/jornalista/fonte/ UOL Notícias Ciência Saúde
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