Conheças as diferenças entre zika, dengue e chikungunya
Pesquisadores em Pernambuco e na Bahia alertam que a febre chikungunya,
que chegou no Brasil pelo Nordeste e se espalha pelo país, deixa um
rastro de pacientes com dores crônicas por meses ou anos. Também
transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, a doença atinge mais
pessoas do que a zika e a dengue, segundo o pesquisador Carlos Brito, da
Universidade Federal de Pernambuco.
A assistente social baiana
Conceição Carneiro, de 40 anos, sofre há quase dois anos com os sintomas
crônicos de chikungunya. Ela vive em Feira de Santana, cidade que
recebeu o vírus e registrou a primeira epidemia da doença no país.
Confira seu depoimento à BBC Brasil:
"Peguei chikungunya em setembro de 2014, quando a epidemia começou em
Feira de Santana. Tive febre, dores no corpo e fiquei uma semana
afastada com o mal estar. Na época, não fiz o exame sorológico. Me
recuperei, mas continuei tendo inchaço no corpo, principalmente as
pernas, com frequência. Fiz diversos exames com especialistas, porque
não imaginei que fosse da chikungunya.
Em setembro de 2015, eu
passei a sentir dores muito fortes. Já não conseguia escrever, não
conseguia sentar, nem andar, nem ir ao banheiro. Parecia que meu corpo
estava paralisado pela dor. Fiquei internada por dois dias e a sorologia
identificou o vírus.
Desde então, eu não tenho mais vida
social. Às vezes sento e não consigo me levantar. Tem dias em que não
consigo ir ao trabalho. Não calço mais salto alto, não abaixo mais para
pegar nada no chão. Acordo à noite sentindo dores, dormência nas mãos,
câimbra nas pernas, não durmo bem.
Eu perdi todas as roupas
porque ganhei cerca de 18 quilos. Não consigo fazer atividades físicas.
Já tentei pilates, hidroginástica, caminhada, mas não aguento, porque os
nervos estão inflamados. A medicação que tomo é forte e eu não vejo
muito resultado. A médica me disse que tenho que tomar por tempo
indeterminado, porque não sabemos quando ficarei bem.
Não
consigo mais ir a festas porque não aguento ficar em pé nem sentada por
muito tempo. Só a gente não poder se arrumar como quer já mexe com a
autoestima. Não uso mais anéis, porque os dedos começam a inchar.
Antes eu morava sozinha e era independente, mas hoje moro com minha
sobrinha porque não consigo fazer muita coisa. Não consigo pegar uma
garrafa térmica para colocar o café na xícara. Minhas mãos não a
sustentam.
Pedi auxílio-doença no INSS em outubro, com os
relatórios das médicas. Mas foi no período em que os peritos estavam em
greve. Então eu fiquei sem receber meu salário nem o auxílio durante
três meses. Passei dificuldade financeira, foi minha família que me deu
suporte. Em janeiro eu tive que voltar ao trabalho, mesmo sem condições.
A sensação que a gente tem é de ser um robô, uma múmia, o corcunda de
Notre Dame. Por pouco não fiquei deprimida. Tomei antidepressivos por
quatro meses porque as médicas perceberam alterações no meu humor.
Tem dias em que você acorda mais animada, mas aí vem aquela sensação de
desgaste físico como se você tivesse corrido uma maratona. Não sou mais
a mesma pessoa. Ando pelas ruas me segurando nas paredes."
Entenda a chikungunya:
Ao contrário do que ocorre com a zika, ainda não há evidências de que o
vírus da chikungunya seja transmitido da mãe para os bebês durante a
gravidez, segundo o Ministério da Saúde. No entanto, a doença tem suas
próprias peculiaridades.
Em seus primeiros dez dias, os
sintomas costumam ser febres, fortes dores e inchaço nas articulações
dos pés e das mãos. Em alguns casos, ocorrem também manchas vermelhas no
corpo.
Mas mesmo com o fim da viremia - período em que o vírus
circula no sangue - a dor e o inchaço causados pela doença podem
retornar ou permanecer durante cerca de três meses. Em cerca de 40% dos
casos, eles tornam-se crônicos e podem permanecer por anos.
"A
intensidade do sofrimento dos pacientes para mim foi uma surpresa, mesmo
que a literatura já falasse disso", diz Carlos Brito, da UFPE.
Em casos crônicos, os pacientes podem sofrer de insônia, dormência nos
membros, câimbras e dificuldades de caminhar. A doença pode causar
inflamação nos nervos ou iniciar doenças reumatoides, como a artrite.
Além disso, também pode desestabilizar doenças cardíacas, problemas
renais e diabetes. Nos casos mais graves, pode causar a síndrome de
Guillain-Barré e outros problemas neurológicos graves, do mesmo modo que
a zika.
"Tenho pacientes que estão doentes há quase dois anos. E
mais de metade deles têm um grau de depressão ou alteração de humor.
Imagine conviver com uma dor intensa e prolongada que você não sabe
quando vai acabar", disse à BBC Brasil a infectologista Melissa Falcão,
da Vigilância Epidemiológica de Feira de Santana.
A doença atinge adultos e idosos com mais força. Em crianças, as manifestações costumam ser mais leves.
Maria Helena Araújo/jornalista/ fonte UOL Ciência e Saúde
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