| A psicanalista Marcia Neder em seu apartamento, no Leblon |
Um século depois de cunhar a expressão "Sua majestade, o bebê", Freud,
se estivesse vivo, teria de atualizá-la para os novos tempos.
O bebê ou a criança não é mais somente o rei da casa –foi elevado à
categoria de um ser que tudo pode e que, ao nascer, transforma a mulher
em outra pessoa, sem direitos nem vontades, mas cheia de culpa: a mãe.
"Os Filhos da Mãe" (Leya, 224 págs.,R$ 29,90), novo livro da
psicanalista e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e
Educação da USP Marcia Neder, aborda as raízes e consequências da
"infantolatria" que existe no Ocidente e a culpa na maternidade, que vem
a reboque.
Aponta também caminhos para libertar as mulheres das expectativas
irreais sobre o papel de mãe, como uma formação que inclua os homens na
criação dos filhos e a abertura para se falar sobre o lado B da
maternidade, seu tédio e suas dores.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
★
Folha – O subtítulo do seu novo livro é "Como viver a
maternidade sem culpa e sem o mito da perfeição". Isso é possível em uma
sociedade que cobra da mulher dedicação total aos filhos sem prejuízo a
outros aspectos da vida?
Marcia Neder – É possível, mas é um processo pessoal e doloroso.
Meu filho tem 28 anos e desde pequeno eu cobrei dele que lavasse a
louça, colocasse a mesa, tivesse responsabilidades próprias.
O homem tem que receber a formação para que se sinta incluído nos cuidados com os filhos. A geração que tem 30 anos hoje já tem noção de que o homem vai ter que assumir sua parcela, o que leva muitos a não quererem ser pais. E é importante permitir que se fale sobre o tédio e a dor que pertencem à maternidade.
O homem tem que receber a formação para que se sinta incluído nos cuidados com os filhos. A geração que tem 30 anos hoje já tem noção de que o homem vai ter que assumir sua parcela, o que leva muitos a não quererem ser pais. E é importante permitir que se fale sobre o tédio e a dor que pertencem à maternidade.
O movimento feminista defende há décadas o direito da mulher sobre
seu corpo e suas escolhas, inclusive a de não amamentar. Há um
retrocesso com as pressões e obrigações que recaem sobre as mães?
A militância deslumbrada que quer que o bebê fique colado no corpo da
mãe e durma na cama dos pais é a mesma da Liga da Amamentação, que
começou no pós-guerra com mulheres que se reuniam em Chicago para se
ajudar com a amamentação e que se transformou em doutrinação. Não pode
colocar o filho na creche porque é uma violência, a mãe é obrigada a
amamentar por anos... Os preceitos da Liga se ampliaram para esse tipo
de exigência, e a adesão foi tão grande que pegou até na França, onde o
feminismo é muito vivo.
A "infantolatria" não é um fenômeno brasileiro?
Não, ela é comum no Ocidente. Cito o filme "As Pontes de Madison" e
séries americanas que mostram o filho no centro da vida familiar. Mas
essa modinha de parto sem anestesia, de deixar a vida de lado para
cuidar da criança são coisas muito brasileiras.
O que eu escuto de criticas às mães que "largam" o filho na creche para
ir à praia... As mulheres dizem: "Para que ela teve filho?" A
continuação desse pensamento é: "se não foi para olhar para o filho 24
horas por dia".
A posição central dos filhos na vida familiar afeta seus membros de forma diferente. Quem é o mais prejudicado?
Todos. O pai é o que menos percebe, mas perde o vínculo afetivo, é
reduzido à função de provedor. A mãe desaparece como mulher e como
pessoa, e o crescimento do filho é doloroso para ela porque implica em
separação. A cada desejo de independência, sente uma culpa e recua na
autonomia psíquica.
E o casal, que lugar resta para ele nessa configuração?
Nenhum, daí o alto índice de separações. O marido perde o lugar. Surge o
ciúme por estar fora do casal formado por mãe e filho e a inveja de não
ter esse vínculo que é promovido pela cultura.
Recentemente, uma mulher escreveu em uma rede social que detestava o
papel de mãe e teve o perfil bloqueado. Por que é difícil ouvir essa
queixa?
Idealizamos a maternidade a tal ponto que não se pode dizer que ela é
sufocante, que tem horas que enche. Para todo mundo ela tem momentos
insuportáveis, mas somos proibidos de falar sobre isso.
Você diz que especialistas contribuem para a idealização do vínculo da criança com a mãe. De que forma?
Fico enlouquecida quando leio gente dizendo que é preciso se agachar
para falar com o filho ou que é proibido gritar. É gente que vive em
outro planeta ou que não é mãe.
Na década de 1950, os homens voltaram da guerra e precisavam dos
empregos que as mulheres haviam ocupado, então arrumaram para elas a
função de responsável pela criança. Esse discurso teve apoio de médicos e
psicanalistas. Eles diziam que não havia nada mais importante para a
criança do que a mãe.
Existe diferença entre as funções materna e paterna?
Não. O que há é uma diferença entre ser adulto e criança. O bebê precisa de um adulto, não de um pai e uma mãe.
| Os Filhos da Mãe |
| Marcia Neder |
Ser mãe é mais fácil ou mais difícil hoje do que há 30 anos?
É mais difícil se olharmos as exigências, mas você pode não se deixar
dominar por elas. Você não é uma criminosa nem será excomungada se
quiser ficar de perna para o ar. E é mais fácil porque há possibilidade
de escrever que a mãe não precisa ser perfeita porque a perfeição não
existe e esse é um ideal massacrante.
Maria Helena Araújo/jornalista/ fonte Folha de São Paulo - Equilíbrio e Saúde
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