A comunidade científica e a parcela de
população mais esclarecida a respeito estão preocupados com o intenso
crescimento nos diagnósticos de autismo e de transtornos do espectro
autista nos últimos anos.
Não é à toa. Desde 2007, quando os
dados de 2000 dos EUA começaram a ser tabulados, o índice vem crescendo.
Começou na casa de 6,7 para cada mil crianças aos 8 anos de idade e, em
2010, o número aumentou mais de 120%, para perto dos 15 em cada mil
–patamar que se manteve em 2012.
Os transtornos do espectro autista
abrangem várias condições diferentes –com origens tanto genéticas quanto
ambientais– que afetam, em maior ou menor grau, as habilidades sociais,
emocionais e de comunicação.
Alguns comportamentos tendem a se
repetir e as pessoas afetadas podem ter diferentes mecanismos de
aprender, prestar atenção ou de reagir ao mundo. Esses sinais geralmente
começam cedo (o que auxilia o diagnóstico já por volta dos 3 anos de
idade) e tendem a durar a vida inteira.
Pelo menos por ora, a escalada do
autismo deu uma trégua e estacionou. Há, atualmente, 1 diagnóstico para
cada 68 crianças, sendo 1 em cada 42 meninos e 1 em cada 168 meninas.
No entanto, apesar da aparente
estabilização, os cientistas dizem que é cedo para comemorar. Mas isso
não quer dizer que estejamos completamente no escuro com relação a essa
questão
A escalada dos diagnósticos positivo
ao longo dos anos, segundo pesquisadores da Universidade do Estado da
Pensilvânia (EUA), aconteceu por uma mudança –ou atualização– nos
critérios médicos de diagnóstico: cada vez menos crianças foram
diagnosticadas com outros distúrbios que afetam a intelectualidade, e
esses casos teriam caído no guarda-chuva dos transtornos do espectro
autista.
VENENO
Não é prudente, claro, descartar
outras causas para a escalada. Um estudo apresentado no último final de
semana no congresso da Academia Americana de Pediatria afirmou que houve
considerável aumento na chance de nascerem crianças autistas em locais
onde havia fumigação com inseticidas da classe dos piretroides (à base
de plantas), na cidade de Nova York.
A mesma relação entre inseticidas e
autismo havia sido indicada antes por um estudo em área rural. Em Nova
York o risco aumentou 25%; próximo a plantações, 70%. Uma possível
explicação para a ação dos piretroides no autismo é a capacidade de
interferirem no funcionamento de células nervosas –mecanismo pelo qual
os insetos são agredidos. De repente, essas moléculas não são tão
inofensivas para o ser humano quanto se pensava.
Sabe-se que um dos fatores de risco
para o autismo é o contato da mãe com substâncias tóxicas e até com
alguns medicamentos. No mínimo, esses resultados indicam que deve ser
feita a avaliação de alternativas ao uso de fumacês, como inseticidas na
forma de tabletes a serem dissolvidos em água parada ou em grãos, que
requerem dispersão manual.
Veja, um aumento da ordem de 70% é trágico: a porcentagem de crianças afetadas pode ir de 1,46% para 2,48%.
Além do sexo (meninos têm chance pelo
menos quatro vezes maior), outros fatores de risco importantes são as
complicações na vida pré-natal da gestante, como hipertensão e diabetes
gestacional. Idade materna avançada também traz maior risco já a partir
dos 30 anos.
BRASIL
No Brasil, estima-se que mais da
metade dos casos de autismo não tenham sido adequadamente
diagnosticados. Infelizmente por aqui não há um serviço de estatística
como o dos americanos para que conheçamos melhor a realidade do país.
O que resta é basear nossas
estimativas em estatísticas de outros países. Dessa forma, o número de
pessoas com autismo e transtornos do espectro autista no Brasil deve
superar os 2 milhões.
Gabriel Alves é repórter de 'Ciência' e 'Saúde'
Maria Helena Araújo/jornalista/fonte Folha de São Paulo -
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